A ideia para este “laboratório” seria precisamente deixar tudo em aberto, não tínhamos propriamente nada planeado. A única coisa que sabíamos era que ao fim de um ano de skypes entre Tel Aviv e Lisboa, seria importante estarmos no mesmo espaço fisicamente para o desenvolvimento desta ideia. Sabíamos que queríamos transformar um espaço “white cube” num lugar mais confortável, de forma a podermos ter conversas com os visitantes, mas a forma como iríamos processar as informações estava em aberto.

Estamos a começar a organizar os temas por grupos e a ver quais são os mais importantes para as pessoas que temos entrevistado. A partir destes temas estamos a contrapor exemplos da realidade e das utopias que as pessoas têm partilhado connosco.

Mais do que trabalho visual, temo-nos dedicado a longas conversas com as pessoas que aparecem. Não sabíamos como as pessoas iriam reagir e se iriam “perder” muito tempo com este projecto, mas não paramos de nos surpreender com o quão interessantes e longas as conversas têm sido e nos têm levado a pensar em muitas outras questões. Cada pessoa tem um contexto e uma história muito especificas e é quase como que uma viagem com cada conversa.

 

Temos tido visitas de pessoas de países como França, Itália, Bélgica, África do Sul, Estados Unidos, Israel, Escócia… A maioria são pessoas que se mudaram para Lisboa recentemente depois de terem estado noutros lugares. Com todas estas pessoas foi falado este assunto tão presente da gentrificação e como o real problema não são estes jovens que trabalham em áreas criativas que se querem estabelecer em Lisboa, mas os que têm um elevado poder de compra e pensam em Lisboa como um investimento, não morando necessariamente na cidade, mas muitas vezes alugando a preços altíssimo ou em alojamento local. Um quarto em Lisboa neste momento vale em média o mesmo que o salário mínimo em Portugal e tem vindo a aumentar.

Houve uma mini-viagem a Luanda no passado, como um lugar com cores e cheiros intensos que contrastava imenso com Lisboa na altura da ditadura, descrita como um lugar sombrio, pálido, com falta de energia e de contacto entre as pessoas. Falou-se sobre a transformação das cidades, mesmo aquelas que não passaram por 30 anos de guerra, mas que sofreram alterações mais subtis. Tanto essa Luanda como essa Lisboa deixaram de existir e passaram a ser outros lugares completamente distintos.

Na conversa sobre coleccionismo e utopias, convidámos José Neiva para nos falar um pouco sobre a sua experiência de coleccionador, que já tem mais de 50 anos. Também nesta conversa surgiu a questão do fascismo e um passado de pobreza extrema no interior e em zonas rurais do país que foi testemunhado e descrito em pormenor. Há uma ligação entre o facto de ter presenciado esta realidade e a necessidade de preservar a sua memória através de objectos ligados ao campo, à agricultura, ao artesanato funcional e uma enorme variedade de objectos populares. Mais do que objectos, a colecção representa memórias.

 

ENGLISH

As the idea for this “laboratory” was precisely to leave everything open, we did not have anything exactly planned. The only thing we knew was that at the end of a year of Skypes between Tel Aviv and Lisbon, it would be important to be in the same physical space for the development of this idea. We knew we wanted to turn a white cube into a more comfortable place so we could have conversations with visitors, but the way we were going to process the information was open.

We are starting to organize the themes by groups and see which are the most important to the people we have interviewed. From these themes we are finding examples of reality and the utopias that people have shared with us.

More than visual work, we are dedicated to long conversations with the people that come in. We did not know how people would react and if they would “waste” a lot of time on this project, but we have continued to be surprised at how interesting and long the conversations have been and they have led us to think about many other issues. Each person has a very specific context and history and it’s almost like a trip with every conversation.

We have had visits from people from France, Italy, Belgium, South Africa, United States, Israel, Scotland … Most are people who have moved to Lisbon recently after living in other places. With all these people the subject of gentrification was discussed, as the real problem is not these young people who work in creative areas that want to establish themselves in Lisbon, but those who have a high purchasing power and think of Lisbon as an investment. They are often not necessarily living in the city, but often renting at high prices and leaving local accommodations empty most of the year. The price of a room in Lisbon is currently worth the same as the minimum wage in Portugal and rents are continuing to increase.

There was a mini-trip to a past Luanda; a place with intense colors and smells that contrasted immensely with Lisbon at the time of the dictatorship, which was described as a dark, pale place with a lack of energy and contact between people. We talked about the transformation of cities, even those that did not go through 30 years of war, but which underwent more subtle changes. Both the previous Luanda and previous Lisbon have ceased to exist and become other completely different places.

In the conversation about collectivism and utopias, we invited José Neiva to tell us a little bit about his experience as a collector for more than 50 years. Also in this conversation the question of fascism came up, and Portugal’s past of extreme poverty, specifically in rural areas. For José there is a connection between having witnessed this reality and the need to preserve its memory through objects related to the countryside, agriculture, functional crafts and a huge variety of popular objects. More than objects, the collection represents memories.

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